Personal + Fórum de Ideias | O dia em que cantei em público

Tive uma aula - ou melhor, um workshop - de canto. Eu, que nunca cantei em público "a sério", que faço quase de propósito para desafinar e brincar quando canto, para não me expor ao ridículo de estar a tentar demasiado porque "sei" que vou fazer figura de parva. Representar, expor-me, chorar, rir, vestir (ou despir) o que for preciso, contracenar seja com quem for, nada disso me assusta. Mas cantar?! Oh não, não me façam isso. Eu canto muito, mas sozinha no carro. Sozinha é a palavra chave aqui. Mas este foi um workshop que me ensinou muito mais do que era suposto.

Shorts - c/o Zaful (discout code: Laura ZF) | Sweater - Pimkie 
Sou actriz na in skené e, claro, isso implica saber controlar a voz, e é precisamente essa uma das minhas maiores dificuldades. Por isso, quando surgiu a oportunidade de fazer um workshop de técnica vocal, eu não hesitei, mas provavelmente se soubesse que teria que cantar em público tinha sido diferente...tanto para mim como para os amigos que foram comigo, já que nenhum de nós ia a contar com isso! A verdade é que a nossa primeira reacção quando nos apercebemos que teríamos que cantar foi rir e dizer, com toda a certeza, "isto vai correr tão mal!". Todos nós "tínhamos consciência" de que não sabíamos cantar, que desafinávamos e não tínhamos dom ou poder vocal - só uma de nós admite que "dá uns toques" (se leres isto, não dás toques nenhuns: cantas, e cantas a sério!)

Fui a primeira dos meus amigos a cantar, e a primeira do grupo inteiro que nunca tinha feito isto na vida. Tremi como já não tremia há muito tempo. De cada vez que eu queria parar e a formadora me mandava continuar, eu quase tinha um enfarte. A minha voz falhou imenso por causa disso. Desafinei, perdi-me na letra, tive risinhos nervosos, the whole thing. Estava uma pilha de nervos e isso notou-se. Quando parei, os joelhos quase fraquejavam e os olhos estavam marejados - parecia que tinha estado ali durante uma eternidade, de olhos fechados porque a vergonha era gigante. Bateram-me palmas - "obrigada por reconhecerem o meu esforço", pensei. E o abraço da formadora (que é uma querida, btw) foi reconfortante. Mas quando nos separamos e ela me diz "Que grande voz que tens aí escondida!" fiquei sem reacção. "Tens voz para jazz! Gostas de jazz?! Começa a tentar cantar algumas coisas da Nina Simone ou da Ella Fitzgerald!" e eu sem perceber o que raio estava a acontecer. Como assim cantar jazz?! Isto vindo de alguém que é cantora lírica e que domina qualquer estilo, que já actuou com as melhores orquestras, e que tem uma voz que dá arrepios de tão poderosa que é.

E cinco minutos depois, com meia dúzia de exercícios que focavam os problemas na voz e na dicção que eu já sabia que tinha mas que nunca tinha percebido como resolver, estava eu a passar de uma versão tímida da "Amar pelos Dois" (sim, foi o que estava na cabeça, bem que podia ter escolhido algo mais fácil!), para abrir a goela e a mente e surpreender-me por o meu Se um dia alguém estar a sair de mim com tanto power e sem desafinar (se soava bem, isso já não prometo, mas pelo menos não desafinei!). A seguir, os meus amigos que também nunca tinham cantado fizeram as suas primeiras versões tímidas e tremidas das músicas que escolheram, depois de mil "ah mas eu não tenho voz para cantar", tal como eu, e, tal como eu, cinco minutos e uma injecção de confiança da formadora depois, estavam sem tremeliques a cantar afinados.

Honestamente, acho que o maior trabalho que foi feito naquela manhã não foram os exercícios de controlo da voz. Foi tirarmos da nossa cabeça o "eu não sei fazer isto e vou fazer figura de parvo". Foi tirarmos da nossa cabeça os "ai cala-te, estás a estragar a música!" que ouvimos (que eu sou culpada de dizer, e de que agora me arrependo tanto!), foi esquecermos o "o que é que vão pensar de mim?!". Ontem percebi a força que a nossa percepção de nós mesmos e que o medo de parecer palerma tem sobre nós: bloqueia, paralisa, impede-nos de melhorar e de descobrirmos do que somos verdadeiramente capazes. Se vou começar a cantar abertamente depois disto? Não me parece. Ou...quem sabe? Tenho consciência de que não tenho uma voz de anjo, mas aparentemente não é tão má como eu me convenci que era!

E agora, penso...quantas mais coisas na minha vida não faço porque me convenci que não sei ou não consigo sem nunca ter tentado ou explorado a sério? Consigo lembrar-me de algumas...
Quem sabe os talentos que temos dentro de nós e não exploramos por medo? 
Quantas portas temos fechado a nós mesm@s à conta de pré-conceitos que criamos na nossa cabeça ou que nos são lá plantados?

Food for thought. Talvez esteja mesmo na altura de mandarmos os medos para trás das costas... :)

E aproveito para vos sugerir uma pesquisa pelo talento da Ana Maria Pinto, que nos deu o workshop pela associação Novaterra. Não é publicidade, é opinião honesta de uma não-cantora que ficou genuinamente surpreendida com a magia que uma boa formação faz e as lições que nos ensina!

As peças marcadas com c/o foram gentilmente cedidas pela marca. O conteúdo publicado é da minha autoria e a minha opinião honesta.


5 comentários :

  1. Já fiz parte de um grupo de teatro amador e adorava todos os workshops que fazíamos, aprendíamos sempre tanto e aprendíamos imenso acerca de nós próprios. Beijinhos*

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  2. Não há mesmo nada mais importante do que tirarmos essas ideias da nossa cabeça... Que não conseguimos entendes? És maravilhosa babe!

    THE PINK ELEPHANT SHOE

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  3. Adorei o post! Segui o teu blog, podes seguir o meu? :)

    www.aflormaria.blogspot.pt

    beijinhos

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  4. Por vezes surpreendemo-nos e aprendemos muito mais com as coisas do que estávamos à espera, e isso é muito bom!:D

    Another Lovely Blog!, http://letrad.blogspot.pt/

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  5. Sabes, essa lição sobre a vida, e como nos impomos limitações, vale tanto...
    Um beijo.

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