Jiji à Suisse: Nunca as paisagens foram tão belas

É certo que já lá vai um ano e meio desde que estivemos na Suiça. Ao mesmo tempo, parece que foi há tão pouco tempo e há uma vida inteira. I digress. O que quero dizer é que foi provavelmente das viagens mais bonitas que fiz até hoje e, uma vez que fomos sem grandes planos porque tínhamos família lá e, assim sendo, teríamos "guia", isso contribuiu para que cada descoberta fosse uma surpresa maior do que a anterior.

Dent de Jaman





Adoro a natureza, mas normalmente sou mais de pessoas, de cidades. Consigo ficar horas a caminhar no meio do nada, mas por norma não penso muito, deixo-me apenas aproveitar a tranquilidade, nem deixo o meu fôlego desaparecer com facilidade graças ao que vejo. Pois bem, a Suíça fez-me contrariar todos os meus instintos. Cada passeio de carro obrigava-me a estar colada à janela a absorver cada detalhe, cada caminhada demorava o dobro do tempo porque eu estava sempre a parar num misto de vontade de absorver tudo e de guardar o que via nas fotografias - que, aviso já, não fazem jus à beleza real que estava perante os nossos olhos.




Lomo

Podia dizer-vos que estas fotografias vêm na sequência do meu post sobre o Wabi-Sabi, mas estaria a mentir. Não, não são imperfeitas de propósito. São imperfeitas porque eu acrescentei a minha falta de experiência à estética já de si imperfeita da Diana F+.

Em todo o caso, não posso negar que gostei imenso dos resultados - sim, eu sei, imagens aleatórias e desfocadas e tudo isso. Sobrexposições, movimento, falta de foco, uma vinheta daquelas: tecnicamente estão uma desgraça. Esta máquina é uma aventura! Mas a verdade é que gosto imenso das imagens. Tenho que aproveitar este tempo de "clausura" para ir buscá-la ao fundo da gaveta.



Não sei quantos dias depois

O abraço da minha Mãe. O riso do meu Pai. 
A Chica às minhas cavalitas. O sorriso doce da Mariana. As private jokes com o meu irmão. 
A viagem que tínhamos marcado para Berlim. 
O caminho diário para o trabalho. Os ensaios de sexta-feira à noite. A ida ao mercado e à feira ao Sábado de manhã. Os passeios de Sábado à tarde. O cinema ao Domingo. A piscina ao final da tarde.

Nem sei se tenho saudades ou se é tudo tão inacreditável que estou "parada no tempo".

Parece que estamos a a viver num episódio qualquer meio esquisito de Black Mirror. É tudo surreal, estranho. As imagens de ruas vazias - e eu, como nem saio de casa, nem as vou ver ao vivo -; o trabalhar sem sair daqui; a sensação de desconfiança e, ao mesmo tempo, de companheirismo nas raras visitas ao supermercado. Valha-nos a tecnologia. Valha-nos a capacidade que criamos de comunicar, entreter, informar, ou estaríamos a ficar todos doidos - não duvido disso nem por um segundo.

Faço o esforço consciente de seleccionar a informação que consumo. Estou farta de mensagens, áudios e vídeos no Whatsapp e no Facebook a ser augúrio da desgraça e a procurar que entremos em pânico e a virar o país x contra o y. Estou farta de irritações e críticas desprovidas de argumentos, numa situação em que era absolutamente impossível alguém estar preparado, e em que é ainda mais impensável achar que alguma solução é perfeita. Estou farta de ver números, mitos e queixas atiradas ao ar por quem provavelmente não cumpre sequer o que é pedido - e que, a bem dizer, é tão pouco. É só não atrapalhar. Agradeço e admiro mais a cada dia que passa quem mantém o mundo a funcionar.

AURORA, ou a peça sobre todos nós


Poderia tentar descrever a sensação de representar numa peça em que contamos a história de pessoas sem nome, pessoas que procuram fugir de terrores inimagináveis ou de uma miséria que não imaginamos possível. Hoje ou há 60 anos. Poderia dizer-vos que tentamos sentir na pele o abandono do mar, o vento e a luz que não sabemos se é vida ou morte.

Mas não vou tentar fazê-lo, porque sei que em nada se compara às sensações vividas por aqueles que realmente vivem as histórias que contamos. Seria injusto tentar pôr-me no lugar deles e delas, enquanto escrevo sentada confortavelmente, na minha casa, no meu país de paz, na minha segurança, e me lamento dos meus problemas diários que na verdade não são mais do que inconveniências.




Vemos relatos de crueldade inexplicável com quem foge da guerra e do terror ou da miséria nas suas casas. Vemos e ouvimos disparates xenófobos, alarmistas e desumanos de quem não consegue olhar para trás e ver a história do seu próprio povo, ou olhar para o lado e pôr-se no lugar do outro. Ouvimos as histórias dos nossos pais, avós, tios, que nos contam de quando fugiram da miséria ou da ditadura, a salto, até França.

AURORA é história destas pessoas sem nome, de lutas sem fim à vista, do mar que nos entrega a qualquer lado. De quem luta por uma vida qualquer, enquanto os outros "dançam até à exaustão".

Treinar a Mente

Aprender e melhorar algo que queremos desenvolver implica necessariamente conhecer o que existe, treinar, experimentar e saber as regras para poder quebrá-las. Fazer só "por fazer", sem reflectir sobre isso, nunca nos permitirá crescer como devíamos e desenvolver as nossas capacidades. O mesmo se aplica ao nosso crescimento como pessoa.

Passamos tanto tempo com a cabeça colada ao ecrã do telemóvel, que nos esquecemos de olhar para cima. Gastamos tanto em roupas e tretas que usamos uma vez para nunca mais pegar, e a seguir dizemos que a Cultura é cara e que não há dinheiro para bilhetes ou livros. Não é verdade, tudo é uma questão de prioridades (quando a corda não nos está no pescoço, claro).



Sem arte, sem sensações, sem imaginação, seríamos apenas máquinas. Essa não é uma vida que eu queira viver. A fotografia, teatro, literatura, cinema, e qualquer outra forma de arte trazem à superfície aquilo que verdadeiramente nos distingue como seres humanos: a nossa capacidade de interpretar e imaginar, de ver o belo e as histórias no meio de algo que pode ser interpretado de mil formas diferentes se for visto por mil pessoas diferentes.

E, por isso, tenho feito o esforço consciente de me deixar contagiar pelo que é posto à minha disposição: dar prioridade àquilo que verdadeiramente me enriquece. Exposições, livros, filmes, lugares, conteúdos online que têm algo a acrescentar àquilo que sou. Não quero, de forma nenhuma, armar-me em supra-sumo da cultura e da arte - estou bem longe disso. Mas há algo neste tipo de experiência que, num mundo em que o imediatismo e o óbvio são o que mais vende, nos torna melhores pessoas - mais pessoas.