Não sei quantos dias depois

Onze? Doze? Ainda agora começamos.


O abraço da minha Mãe. O riso do meu Pai. 
A Chica às minhas cavalitas. O sorriso doce da Mariana. As private jokes com o meu irmão. 
A viagem que tínhamos marcado para Berlim. 
O caminho diário para o trabalho. Os ensaios de sexta-feira à noite. A ida ao mercado e à feira ao Sábado de manhã. Os passeios de Sábado à tarde. O cinema ao Domingo. A piscina ao final da tarde.

Nem sei se tenho saudades ou se é tudo tão inacreditável que estou "parada no tempo".

Parece que estamos a a viver num episódio qualquer meio esquisito de Black Mirror. É tudo surreal, estranho. As imagens de ruas vazias - e eu, como nem saio de casa, nem as vou ver ao vivo -; o trabalhar sem sair daqui; a sensação de desconfiança e, ao mesmo tempo, de companheirismo nas raras visitas ao supermercado. Valha-nos a tecnologia. Valha-nos a capacidade que criamos de comunicar, entreter, informar, ou estaríamos a ficar todos doidos - não duvido disso nem por um segundo.

Faço o esforço consciente de seleccionar a informação que consumo. Estou farta de mensagens, áudios e vídeos no Whatsapp e no Facebook a ser augúrio da desgraça e a procurar que entremos em pânico e a virar o país x contra o y. Estou farta de irritações e críticas desprovidas de argumentos, numa situação em que era absolutamente impossível alguém estar preparado, e em que é ainda mais impensável achar que alguma solução é perfeita. Estou farta de ver números, mitos e queixas atiradas ao ar por quem provavelmente não cumpre sequer o que é pedido - e que, a bem dizer, é tão pouco. É só não atrapalhar. Agradeço e admiro mais a cada dia que passa quem mantém o mundo a funcionar.

Reinvento os dias conforme posso (não está fácil confesso, mas sempre ponho as fotografias, a leitura e o exercício em dia!). Isto de ser moça que nunca pára em casa não facilita a tarefa. E nem tenho vindo publicar aqui porque confesso que estou num espaço estranho em que me sinto...desligada? Sei que isto vai piorar antes de melhorar. Só quero é que os meus fiquem bem. É egoísta, eu sei. E o meu instinto diz-me que quer que isto passe depressa porque parece um sonho esquisito, a virar pesadelo, mas na verdade quero que passe bem devagar. Muito devagar. Para fazer o mínimo de mossa possível no que a vidas diz respeito.

Tenho a sorte de poder trabalhar a partir de casa. E embora o Zé não tenha essa hipótese, sabemos que estamos minimamente seguros - ou, pelo menos, se o bicho nos bater à porta, não vamos levá-lo a ninguém que nos é querido. Porque os abraços que poupamos agora, queremos dar em quantidades muito superiores no futuro. Nesta entrada de diário, ao décimo segundo dia de "que mundo é este?", quero deixar o medo e levar esperança, mesmo sabendo que vêm tempos difíceis muito depois de isto acalmar. Hoje deixo aqui o desabafo, e amanhã é um novo dia, mais animado e com os olhos no futuro.

Ponho os olhos no dia em que vou abraçar a minha família e vamos poder finalmente marcar de novo o nosso jantar semanal, e vou voltar aos ensaios e à nossa parvoíce habitual, e vamos beber uns copos à baixa e vai estar tudo bem. E, entretanto, vamo-nos entretendo e viajando dentro da nossa cabeça.

Vai ficar tudo bem. Vai mesmo.


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